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sábado, 31 de outubro de 2015

Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia e Suécia: O que os países menos corruptos do mundo têm a nos ensinar?


Basicamente? Transparência, igualdade de gênero e paciência. É preciso tempo para que uma nação se torne exemplo em combate à corrupção para o mundo. E, é claro, é preciso também iniciativa para mudar.
Baseados nos dados de 2014 da Transparency International, que mede o nível de corrupção no setor público de 175 países, fomos atrás dos motivos que tornam os primeiros países dos ranking – Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia e Suécia– exemplos de países “livres de corrupção”.
É importante, no entanto, fazer duas ressalvas: a primeira, e óbvia, é que nenhum país é totalmente livre de corrupção. E a segunda é que esta reportagem não tem, absolutamente, o intuito de comparar a realidade brasileira com a dos países nórdicos ou com a Nova Zelândia. O que tentamos fazer foi, a partir de relatórios, documentos e entrevistas, juntar boas práticas que podem, sim, servir de exemplos para todos nós.
Clos
De acordo com Marie Chêne, coordenadora de pesquisa na Transparency International, há um consenso de que a luta contra a corrupção – abuso de poderes confiados para ganhos privados - envolve participação popular e mecanismos de transparência, como a abertura de arquivos.
Segundo o embaixador da Dinamarca na Hungria, Tom Nørring a corrupção “viola todos aqueles cuja vida, atividades diárias e felicidade dependem da integridade das autoridades e dos funcionários públicos”. Além disso, a corrupção acarreta em custos sociais, políticos e econômicos.
Ele afirmou que os dinamarqueses não são “imunes” à corrupção, mas que, ao longo dos anos, o país construiu uma “tradição que faz com que seja mais natural manter alguns padrões morais e éticos”.
Não é que nós somos melhores do que vocês. Somos apenas mais transparentes, o que torna a corrupção mais difícil”, afirmou Gunnar Stetler, da unidade central anticorrupção de Estocolmo à BBC.
Na Suécia todos têm acesso às informações públicas, podendo também verificar de que forma o governo está utilizando os recursos públicos. Dessa forma, o povo acompanha de perto as atividades dos políticos.
“O público e a mídia – jornais, rádio e emissoras de televisão – são autorizados a receberem informações sobre as atividades do Estado. Isso desempenha um papel fundamental em assegurar alto nível de transparência e também é crucial para a prevenção efetiva da corrupção.”
De acordo com Chêne, os países com melhor desempenho no ranking têm uma longa tradição em aspectos como a abertura do governo, ativismo civil e confiança social.
Em um relatório da Comissão Europeia, autoridades suecas afirmam que os baixos índices de corrupção estão ligados à “longa tradição de transparência e abertura da sociedade e das instituições da Suécia, assim como o forte respeito pela lei”.

Embora conte com um sistema legislativo que puna a corrupção, a Dinamarca não tem uma estratégia anticorrupção global. Desde 2013, a pena máxima para crimes de suborno subiu para 6 anos no setor público e 4 anos no setor privado. (Antes era de 3 anos e seis meses, respectivamente). Na Nova Zelândia, único país não escandinavo da lista, as penas para suborno podem chegar até 14 anos.
As autoridades dinamarquesas são obrigadas a prestar contas, mensalmente, das suas despesas de viagens e dos benefícios – inclusive “presentes” – que recebem.
O processo de combate à corrupção também não é rápido. Na Dinamarca, o caminho começou com a introdução da monarquia absolutista, em 1660. Na época, o recebimento de propinas era punido com pena de morte. Segundo oMinistério de Relações Exteriores da Finlândia, a erradicação da corrupção no país vem se desenvolvendo há quase dois séculos.
“O decréscimo histórico na corrupção é parte integrante do desenvolvimento global e da sociedade finlandesa, de uma sociedade sem educação, pobre e baseada na agricultura para uma república democrática independente, um país modernizado e industrializado, uma população bem educada e uma sociedade da informação.”
A experiência finlandesa também sugere que o exemplo moral dado por oficiais que ocupam cargos executivos é “indispensável para o desenvolvimento de uma cultura de governança ética”.
Embora conte com uma consciência política e com mecanismos legais eficientes de combate à corrupção, a Finlândia tem na participação da população um aliado neste processo. A corrupção, mais do que proibida por lei, é rechaçada no âmbito popular, inclusive nas pequenas atitudes do dia a dia.
Outro aspecto citado pela International Transparency para o combate à corrupção é a existência de uma mídia engajada e independente.
A opinião é compartilhada pelo Ministério das Relações Exteriores da Finlândia. Em documento, o órgão afirma que “a mídia independente provou ser indispensável para a criação de pressão da sociedade civil”. Ajuda também o fato de que os finlandeses estão entre os povos que mais leem jornais no mundo.
Outro aspecto importante, segundo estudos do Banco Mundial, é a igualdade de gênero na distribuição das cadeiras do parlamento e de todos os cargos no serviço público. Em 1906, a Finlândia se tornou o primeiro país a legalizar o voto e a candidatura de mulheres para cargos públicos.
De acordo com estimativas do Banco Mundialcerca US$ 1 trilhão são pagos em subornos anualmente. É provável, no entanto, que o custo total da corrupção sejamuito mais elevado, porque a projeção não inclui outras formas de corrupção como processos de aquisição fraudados ou mau uso e desvio de dinheiro público.
De acordo com o relatório, a corrupção e a lavagem de dinheiro seguem sendo um problema nas principais nações que compõe o BRICs: Brasil, Rússia, Índia e China. O Brasil ocupa o 69º lugar no ranking, atrás apenas da África do Sul, na 67ª posição. A Rússia, a China e a Índia estão nas posições 136, 100 e 85 da lista, respectivamente.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ceará é o Estado que mais prende pessoas por corrupção no Brasil


O Ceará é o estado que mais prendeu pessoas por corrupção no Brasil. De acordo com o DEPEN - Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, foram 820 no ano passado.

O número é bem superior ao dos outros estados. Minas Gerais, por exemplo, registrou 123 pessoas presas por corrupção em 2012, no Rio de Janeiro, 131. A Bahia prendeu somente 11. Quatro estados fizeram menos do que cinco prisões por corrupção: Roraima, Piauí e Rio Grande do Norte, três prisões e Sergipe zero.

Na cidade cearense de Guaiuba, Caco Barcellos registrou a discussão de moradores contra e a favor do prefeito. Kaio Holanda (PROS) foi cassado pelo uso de dinheiro ilícito, o chamado caixa dois, na campanha eleitoral. Ernane Araújo (PSDB), presidente da câmara dos vereadores, assumiu a prefeitura interinamente e acusou o anterior de ter deixado a cidade sem dinheiro em caixa, e de ter roubado documentos importantes.

Imagens de uma câmara de segurança mostram a denúncia do prefeito interino. “Quando o oficial de justiça veio comunicar o prefeito sobre sua cassação, parou um carro branco aqui, pegaram várias pastas, atrás parou um carro preto, fez a mesma coisa, e levaram”, conta.

As suspeitas mais graves estão na coleta de lixo. “Custa R$ 9 mil um caminhão compactador novo. O prefeito estava contratando por R$ 21 mil. No mês passado passou para R$ 37 mil. São dados, não sou eu que estou falando, está escrito no papel”, diz Araújo. Ele disse também, que na sala onde acontecem as licitações foram encontrados vários documentos revirados. “Inclusive, foram esses documentos que eu acredito que tenham saído nesses carros. Tinham quatro computadores aqui, que estão no Procap”, declara.

Depois de uma semana, a Justiça Eleitoral suspendeu a cassação do prefeito de Guaiuba. Kaio Holanda foi recebido por uma multidão. “Infelizmente é uma perseguição política, que se você perguntar a qualquer pessoa de Guaiuba ela vai te dizer. Essa perseguição política não é de hoje“, declarou Kaio Holanda, prefeito de Guaiuba (PROS).

Sobre as suspeitas de superfaturamento em licitações para a coleta de lixo, ele disse: “Foi contratado por 21 (vinte e um mil reais) no começo do ano, porque era um período que a gente chama de emergencial, pois era alternância de poder e depois reduziu. Fez foi cair o preço”, declarou Holanda.

Durante os últimos quatro meses o repórter Caio Cavechini acompanhou a rotina da Procap - Procuradoria dos Crimes à Administração Pública, o órgão mais ativo de combate à corrupção no Ceará.

João Vianey, morador de Maracanaú, é fiscal do Detran e já levou até o Procap centenas de denúncias. Algumas são simples, ecritas à mão e anexadas a folhetos de supermercados. Além disso, uma vez por semana ele protesta em uma praça contra as compras da prefeitura que considera abusivas.

Em um bairro pobre da cidade, ele mostra o objeto do caso mais recente de corrupção no Ceará, chamado de escândalo dos banheiros, que desviou até R$ 19 milhões em mais de 20 cidades.

A maior parte do dinheiro da fraude foi enviada para uma sociedade, que supostamente faz a proteção e assistência à infância de Pacajus. Os promotores afirmam que somentre essa entidade recebeu dois milhões de reais do governo do Ceará para construir 200 banheiros para as famílias pobres da cidade. Todo o dinheiro foi desviado.

“Foram associações criadas a toque de caixa, que em menos de 60 dias estavam requerendo recursos do estado para poder construir esses banheiros. O dinheiro vinha do fundo de combate à pobreza. Era um dinheiro destinado a pessoas muito pobres, muito carentes, que não tinham nem onde fazer suas necessidades básicas”, explica Ythalo Loureiro, promotor

A cidade onde o escândalo dos banheiros foi descoberto tem mais de um terço da população desempregada e não tem tratamento de esgoto. “O destino desse dinheiro, conforme análise dos extratos bancários, ficou claro que não foi para material de construção. Foi para encher algumas contas bancárias e também para financiar a campanha política do deputado estadual Téo Menezes”, informa Ythalo Loureiro, promotor.

A reportagem tentou por duas vezes falar com o deputado Téo Menezes, mas ele não deu entrevista. Também foi feita tentativa de contato com o pai do deputado, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, Teodorico Menezes, acusado de comandar o desvio.

Segundo o Ministério Público, R$ 157.800 do fundo de pobreza foram usados para o pagamento de uma casa, que pertence a Teodorico. O processo tem 17 volumes e mais de cinco mil páginas. Até agora ninguém foi punido. 

“O sistema judiciário já é tão infinitamente dedicado a não obter a punição de corruptos, que não precisa fazer nenhum esforço para impedir a tramitação desse processo”, comenta o promotor Loureiro.

Atualmente a prefeitura de Ibaretama é investigada por comprar combustível super faturado para o transporte escolar, mas a cidade ficou famosa por outro caso de corrupção. Em um cartório foi reconhecida firma de um acordo de corrupção.

No documento consta que seria repassado mensalmente, a quatro vereadores, R$ 4.500 se elegessem João Vieira Picanço como presidente da câmara. O documento também selava a promessa de que um dos vereadores seria eleito o próximo presiente da câmara. Os vereadores negam que tenham assinado o acordo.

Em Fortaleza, José Roberto, um entregador de água, ouve dizer que ganhou uma fortuna.  No papel, ele é um empresário bem sucedido do ramo da construção civil. Por R$ 100, ele deixou seus documentos com um desconhecido. Seus dados foram utilizados para abrir a empresa Inovar Construções e Serviços LTDA, que ganhou licitações milionárias em mais de 20 cidades cearenses, em 2008, 2009 e 2010.

“Pessoas como o José Roberto são usadas por membros de quadrilhas organizadas em desviar dinheiro público, para constituir empresas, que servem única e exclusivamente para fraudar licitações”, explica Eloílson Landim, promotor.

Uma das cidades cearenses onde a empresa de Zé Roberto ganhou licitações é Trairi, que mudou de prefeito quatro vezes em menos de seis meses. Em uma tentativa de demonstrar transparência, a câmara de vereadores transmitiu pela primeira vez, a votação de um novo pedido de impeachment do prefeito, em tempo real para a população, pela rádio da cidade. A maioria dos vereadores decidiu não abrir o processo contra o prefeito.

Depois de fraudes em licitações, superfaturamento e compra de votos, a população resolveu protestar, não contra os políticos, mas contra o promotor da cidade. Partidários do prefeito criaram a campanha 'Fora Igor'. "Eu vou mandar fazer um quadro com a camiseta da campanha, vou colocar atrás da minha cadeira porque ela é a maior demonstração de como meu trabalho está incomodando os corruptos”, avalia Igor Pinheiro, promotor.

A meta do Conselho Nacional de Justiça é de que os tribunais julguem até o final deste ano todos os casos de corrupção que tramitam há dois anos ou mais. O Ceará faz prisões na fase de investigação, mas não consegue condenações. Cumpriu só 41% da meta, abaixo da média nacional, que é de 53%.

O Rio de Janeiro, por exemplo, cumpriu 74% da meta, a Bahia cumpriu apenas 10%. “O que falta ainda no estado do Ceará é a sequência que se dá ao processo investigatório. As investigações serão concluídas, no entanto, os processos levarão décadas para serem julgados. Podem ser alcançados pela prescrição ou até mesmo as pessoas avaliarem que o crime, naquele aspecto, compensou”, declara Luiz Alcântara, promotor.

OPERAÇÃO “HORA DO LANCHE” CUMPRE MANDADOS DE PRISÃO E BUSCA E APREENSÃO EM TRÊS MUNICÍPIOS

O Ministério Público do Estado do Ceará deflagrou hoje (2) a operação “Hora do Lanche”, que cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão em Russas, Caucaia e Fortaleza. Foram efetivadas três prisões temporárias e uma condução coercitiva, envolvendo agentes públicos e proprietários de empresas fornecedoras de merenda escolar para a rede municipal de ensino da cidade de Russas. Eles são acusados de vários crimes, incluindo fraude em licitações, falsificação de documentos públicos, superfaturamentos de preços e falsidade ideológica. A operação é resultado de articulação conjunta entre os promotores de Justiça do Núcleo de Tutela Coletiva (NUTEC) da 4ª Unidade Regional do MPCE, com sede no Município, em parceria ainda com o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) e equipes da Polícia Civil.

             As empresas envolvidas nas fraudes, Comercial Alves (Bruna Alves Castro de Sousa-ME) e N.R. de Lima-ME, pertencem ao mesmo grupo. Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos na Prefeitura de Russas, nas residências dos investigados e nas sedes das referidas empresas. Durante as diligências, foram presos a secretária municipal de Educação, Morlânia de Holanda Chaves; a cunhada dela e coordenadora do setor responsável pela merenda escolar, Cheria Cristina Costa Monteiro; e o proprietário da N.R. de Lima, Natanael Rodrigues de Lima.

             De acordo com as investigações, de 2014 a 2015, a Prefeitura realizou licitações  para o fornecimento de merenda escolar. No entanto, os itens eram fornecidos por vendedores locais. A apuração mostrou que as empresas envolvidas têm movimentação financeira paralela, mostrando a ocorrência de um conluio para fraudar licitações. Além disso, os preços da contratação foram superfaturados, denotando o desvio de verbas públicas.

             Os promotores de Justiça envolvidos na operação “Hora do Lanche” irão conceder entrevista coletiva daqui a pouco, às 14 horas, na sede das Promotorias de Justiça de Russas (Rua Padre Raul Vieira, 380, Altos, Centro).

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